quinta-feira, 7 de março de 2013

Uma conversa com Loretta


Recentemente tive a oportunidade de ter uma ótima e amistosa conversa com uma pessoa incrível, Loretta di Fiori. Descomunal (e só poderia ser assim), houve filosofia, pensamentos retrógrados (que são sua marca) e tons de melancolia, mas não eram 50. Não confundam.
Talvez a própria Loretta não esperasse o tanto de perguntas que lhe fiz a fim de conhecer um pouco esse mundo encantador onde vive. A minha sede de ouvi-la, tal qual a de lê-la, era tanta, que eu nem mesmo falava. Apenas dizia uma palavra e deixava-a definir, resenhar, exemplificar e explanar. Uma dádiva.
Percebi naquele instante que o mundo de Loretta é um mundo mágico e inexistente. E isso a faz ser quem é: encantadora, misteriosa e frágil. Chego a essa conclusão porque não pode ser deste mundo, deste nosso mundo, desde mundo de vocês uma pessoa que se inspira facilmente com cansaço. Ou quando não dorme. Sinceramente, antes eu não imaginava alguém que escrevesse belas poesias ao som da chuva. Agora torço para que chova.
Em determinado momento, falamos sobre sua melancolia e qual foi a minha surpresa? É algo que a inspira mais do que um momento feliz. Em suas palavras, “pouco escrevi quando estive realmente alegre”. Inspirações são particulares, melancolias são particulares. Mas como classificar alguém que se inspira e faz belíssimas obras a partir de uma tristeza? Ser testemunha de um momento triste, para ela, é tão inspirador quanto ler Caio, Vinicius, Carlos, Quintana.
Loretta valoriza no relacionamento o cuidado, os valores. Acredita no ser humano como um ser relacional e por isso o exalta. A capacidade de relacionamento do ser, para ela, é algo fascinante. Uma escritora, uma pensadora, talvez filósofa, apostando no relacionamento e o citando-o com as palavras “lindo e necessário” é realmente maravilhoso. Acrescente, agora, nestas palavras, melancolia. E pronto, temos Sempre-em-mente, Discretamente, Outra história, e outros tantos achados maravilhosos deste ser relacional que é a própria Loretta.
Como toda magia tem um fim, toda conversa, por mais maravilhosa que seja, também tem. E não menos mágico do que todo o restante da conversa, nos despedimos falando sobre nossas filosofias de vida. Loretta mostrou toda sua grandeza ao me dizer que acredita que a essência do homem é feita de amor e de dor. Segundo ela, é o que nos dá vazão. É o que nos intriga, nos aflige, mas nos conforta.
Realmente, depois de tanto ler Loretta e dessa conversa maravilhosa, chego a uma séria e complicada conclusão: ela nasceu, claramente, na época errada. Não obstante, a sociedade, o mundo de hoje precisa de Loretta. É necessário que ela esteja aqui, entre nós, nos presenteando com maravilhas e melancolias. É necessário que haja Loretta para equilibrar o racional e intenso emocional.
Necessário é que todas as pessoas possam conhecer e contemplar sua arte. Só assim poderão ser pessoas melhores. Não pode haver nada melhor e mais proveitoso para o equilíbrio social do que uma bela leitura, uma boa reflexão e um pouco de melancolia para o crescimento e amadurecimento das pessoas (assim como aconteceu comigo, confesso). É preciso mesmo, que todos tenham uma conversa com Loretta.

Lorenzo di Bianco

domingo, 3 de março de 2013

O Não-Lugar.

Existe um lugar,
Porém, só existe.
E só existe em um outro lugar -
O não -lugar.

Onde não sinto dor.
Onde meu coração não pulsa.
Onde meu ar é outro.
Onde minhas músicas,
Aquelas que são só minhas,
Encantam.

Existe um lugar.
Porém, só existe.
E só existe em um outro lugar -
O não-lugar.

Onde não há saudade,
Essa palavra tão pequena,
De longa duração.
Onde não caem lágrimas,
Sim, aquelas de solidão.

Existe um lugar.
Porém, só existe.
E só existe em um outro lugar-
O não-lugar.

Onde escrevo.
E só escrevo.
Mas não são lamúrios,
Nem versos corridos
E escorridos de sofrimento.
São versos em preto e branco.
Em sustenidos e bemóis.
E quem os ouve, os interpreta
Como quiser.

Nas palavras di Bianco,
É quase complicado acreditar nisso.
É quase estranho perceber isso.
É quase triste escrever sobre.

E ouso dizer que é nesse lugar,
Onde há o não-amor.
Sim, aquele deveras perdido.
Deveras aceitável, ou não.
Depende.


Existe um lugar.
Porém, só existe.
Assim como eu:
Só, existo.
E existe em um outro lugar-
Assim, como eu.

Esse lugar existe?
E eu, existo?

Sim, no não-lugar!


Loretta di Fiori.


Não-amor

É quase complicado acreditar nisso.
É quase estranho perceber isso.
É quase triste escrever sobre (e não poder fazer nada).
É quase difícil entender como isso funciona.
O não-amor. É amor, mas não. Regulado, limitado.
O amor que não se joga, o amor que não ama.
O não-amor é racional, sem loucuras e extravagâncias. É ponderado. Insosso.
Não pode ser amor. Não há entrega, há empréstimo.
Não há trocas de ideias, apenas conversas. Tolas, à toa. Soa passatempo.
Não-amor é coleguismo, é companhia e sem dedicação.
O não-amor não é de todo ruim, mas é incômodo.
Acompanha o amor esta partícula ingrata tal qual uma pedra no sapato (no calcanhar).
O não pesa. Assusta. Confunde, trai.
Não é desejo de ninguém, mas pode ser escolha quando só se tem uma escolha.
Para uma mudança, por fim, total é necessário a negação deste advérbio.
O único não aceitável no amor é que ele se torne um não-amor.

Lorenzo di Bianco.