sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Vida e Música

Por escrito, parece-me com menos pesar
Que assim o faço.

O que é a vida?
Se não é nascer sem querer,
Ter de enfrentar um mundo
Completamente estranho
E depois, ir-se sem, muitas das vezes,
Se despedir?

Como toda criança,
Tive meus sonhos infantis.
Talvez os meus fossem mais estranhos:
Queria visitar a Lua,
Andar nas nuvens,
Viajar de foguete,
Circular nos anéis de Saturno,
Ter meu próprio Telescópio
E ser uma espécie de "super-herói".

Já na adolescência,
Me desencantei com esse mundo.
Queria fazer de tudo para ser diferente dos
Habitantes que aqui, me rodeavam.
Aprendi algumas falas dos vulcanos,
Enquanto me imaginava na Enterprise,
Queria um prêmio Nobel,
Procurava as estrelas e suas posições
Para saber seus nomes.
Buscava tocar as músicas mais difíceis ao piano,
Decorava alguns "chavões" em várias línguas
Para usá-los à vontade.
Queria saber como tudo funcionava
E ter as respostas para todos os questionamentos
De qualquer pessoa.

Nesse meio-tempo,
Já ri muito de até doer a barriga,
Já escrevi na areia.
Já andei de trem.
Já tirei foto no meio do Mar.
Já saí correndo e gritando para ver até onde conseguiria fôlego.
Já pulei de barriga na piscina para ver se doía mesmo.
Já comi marisco cru.
Já andei em pedras vulcânicas.
Já gritei "eu sou o rei do mundo e posso controlar a gravidade", enquanto subia um monte de pedras.
Já chorei por meninos.
Já coloquei uma carta em uma garrafa e enterrei.
Já fiz minhas listas do esquecimento e coloquei-as no bueiro.
Já  tomei banho de chuva.
Já andei descalço no asfalto.
Já tive uma casa na árvore (um tanto exótica, mas tive).
Já derrubei uma pilha de papel higiênico no supermercado.
Já imitei os pássaros, introduções e melôs, e os mais diversos sons (que só faziam sentido na minha cabeça).
Já inventei palavras em vários idiomas.
Já cantei "lá lá lá"para substituir a letra que eu não sabia.
Já fiz alguém que estava chorando, rir das minhas gracinhas.
Já guardei o chiclete na geladeira achando que o gosto doce permaneceria até o dia seguinte.
Já cantei alto, com os fones de ouvido e quando os tirei, todos estavam me olhando.
Já dancei fora do compasso.
Já caí da escada.
Já fingi estar doente para não sair de casa.
Já li e reli várias vezes a mesma mensagem.
Já me imaginei regendo uma orquestra.
Já inventei ritmos de diferentes instrumentos na minha cabeça.
Já escrevi poesias para alguém e nunca as enviei.
Já acordei de madrugada e fui ver se todos da  casa estavam respirando bem.
Já fiquei esperando a chuva acabar só para fotografar o arco-íris.
Já perdoei, já amei, já superei.
Mas também, já sorri e já me diverti!

Já fiz tantas outras coisas!
E para cada uma delas, tenho uma trilha sonora que ecoa todas as vezes que me recordo delas!
Afinal, o que é a vida, se não notas a serem tocadas formando, no final, a mais bela sinfonia?!

Loretta di Fiori.




Heróis Superlativos

Superlativos relativos.
Exatamente isso que a existência cobra.
Nesse mundo, não existem "talvez".
Assim, perde-se a vez por um tal.

Sempre ser Super.
Superar.
Suprir.
Surpreender.
E o que resta disso?
Um longo Suspirar.

Sempre ser
O perfeito.
O elegante.
O espetacular.
Jamais errar.
Sempre ser
Super
Em Superlativo
Não-relativo.

Não sentir.
Não admitir.
Não deixar ninguém saber.
Nunca! Jamais.
Sempre tudo bem.
Sempre feliz para sempre.
Nesse caso,
Superlativos relativos.

Mas, uma força precisa ser aplicada.
A área é pequena, logo a pressão será maior.
Incrível como o mundo mudou repentinamente.
As páginas do calendário se foram virando
Sem que notasse.
Mudou-se o mundo, ou a mudança foi interna?

Todos os dias, matar o ego.
Olhar no espelho, e nunca se ver.
A capa vermelha nunca pode bater em retirada.
Mas passar pelos trens,
Pelas pontes,
Pelos abismos
E pessoas em apuros...
E mesmo assim,
Voltar para a casa,
Sabendo que tudo não passou.
Na verdade, cada dia é um prelúdio
De outro que virá.

E quem está ali?
Não há ninguém.
Com grandes poderes,
O que pode fazer?
Isso lhe traz grandes responsabilidades.

Heróis.
Vivem sempre no Superlativo.
Sentem tudo no Superlativo.
Não porque não querem,
Mas a vida lhes cobra mais esforço.
Dois Mundos: nunca podem escolher entre um e outro.
Devem salvar os dois.
Duas vidas: sempre têm o mesmo valor.
Dois corações: abre mão do seu para salvá-los.

Onde estão?
Nas ruas, caminham como gente comum.
Não têm marca nem sinal aparente.
Mas, se olhar atentamente,
Verá...
Ainda existem heróis vivendo no superlativo.
Nunca chorarão, afinal, eles têm esse direito (ou essa obrigação)?
Nunca se ausentarão.
Não é deveras complicado,
É meramente relativo.


Loretta di Fiori.

domingo, 2 de novembro de 2014

Um Momento da Eternidade

A maldição da rosa foi lançada.
Por anos, viraria a vergonha,
Escondendo-se de si e de todos.
A menos que alguém a aceitasse,
A amasse.
Isso mudaria o conto final.

Sob a maldição,
Ela seguiu.
Já se acostumara ao seu passado,
Fazendo do seu presente
Um contar de dias para a eternidade
Não demorar.

Até que chega o convite para o Baile.
Todas as moças do reino irão.
O papel dourado, letras bonitas e o selo real...
Tudo compunha algo sobremodo elevado
À desfalecida moça.
Pois seu coração escondera,
Trancara e a rosa era a única esperança
Para a ele abrir.

Os preparativos começam,
Flores e perfumes por todos os lados.
Por que não ir?
Mas a voz daquela força
Que a amaldiçoara,
Soava dia após dia
Como o soar de um metal
Em seus ouvidos.

Foge para um lugar tão-tão distante.
Corre sem direção,
Seus cabelos se perdem ao vento,
Até que seus joelhos se rendem ao chão.
Sem perceber,
Dos seus olhos brotavam lágrimas,
De dor, de esperança.
Tantos anos sob a maldição da rosa!

Alguém de longe a vê
E a toca por trás.
"Quem é você?" - ela pergunta.
"Sou seu desejo realizado". - ele responde.
E a chama para dançar.
Ali, distante de todos no Baile.
Afinal, para que estar rodeado de muitos olhares,
Sentindo-se só?
E para que tantos sorrisos,
Sentindo-se em perpétua tristeza?

A música tocava para os dois.
Ela nem se importara com o vestido que usava,
Mas sabia que o perfume das rosas em si,
Era do que ele gostava.
E para aquela moça,
Outrora desamparada,
Sofrendo as dores de sua maldição,
Aquele momento a fez tirar os pés do chão.
Ele sussurrava em seus ouvidos,
Levava seu corpo no compasso.

Até que tocou meia -noite
E, com o soar do sino,
A rosa caiu no chão,
E sem notar, quebrou a esperança de sua salvação.
Ele parte,
Seu olhar é sombrio,
Vazio,
Sem brilho.
Suas mãos tocam pela última vez
As mãos que tremiam.
A vitrola parece quebrar,
E junto, o compasso da música a tocar,
É interrompido por um ruído.

Ela tenta enxergar e não vê.
"Tenho tanta coisa a te falar..."- ela grita!
"Falar, cantar..." - repete o eco.
Seus olhos, perdidos no horizonte,
Seus joelhos, trôpegos no solo da campina que se convertera em deserto,
Seus olhos, jorrando lágrimas,
Seus lábios a entoar enfurecidamente
"Não vá..."
Até que suas forças se esgotam.
Não cessam as lágrimas.
Se curvam os altares.

De repente, ela abre os olhos,
Enxuga bruscamente seu rosto
E leva seu olhar ao seu lado.
Sua rosa se quebrara!
Estava ali, desnuda, desprotegida e espatifada ao chão!
No castelo, risos e emoção de todos os que ali festejavam.
Ela podia ouvir,
Mas estava ali, sozinha.
O relógio parou.
Parou à meia-noite.
Ela desesperadamente corre em sua direção
E tenta voltar as horas.
Não dá.
Ele quebrou.

Seu coração tenta aceitar,
Embora, sem nada a entender,
Queria ter tido a chance de voltar,
De esquecer.
De não nascer!

Mas é tarde.
Daquele sonho
Não ouviu um "adeus".
Mas, o momento que a ele esteve,
Foi um momento de sua Eternidade.

Agora, sem rosa e sem tempo a correr,
Ela parte,
De volta a seu mundo
À sua realidade.
A de que fora amaldiçoada
A não ser amada
Por tanto amar.

Afinal, foi só um sonho
Que viveu por um momento
Na eternidade!

Loretta di Fiori.