quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Lágrimas de papel

Uma vez decidi que partiria
Para um lugar onde nada
Me trouxesse lembranças
Daquele tempo.
Decidi que ali seria meu refúgio,
O meu castelo, só que na areia.

Resolvi escrever tudo em um papel,
Sair correndo
E, no meio do nada,
Sob o pôr-do-sol,
Queimar  minhas lembranças
E jogá-las ao vento.

Me esqueci, porém,
Que as únicas coisas
Que me restavam de você,
Eram estas lembranças.
E percebi isto,
Quando as escrevi no papel.

Então, voltei correndo.
Destruí o castelo de areia.
Chovia.
E as gotas da chuva
Se misturavam às minhas lágrimas.
Lágrimas de dor,
Lágrimas de saudade,
Lágrimas de papel.

Hoje, não quero jamais
Perder nenhuma lembrança
Daquele tempo.
Todos os dias
Me sento,
Me perco nas memórias,
Memórias daquele tempo.
E escrevo minhas lágrimas de papel.

Todos os dias me deito,
Me lembro.
Sou recordação,
Você é a saudade.

Mas são apenas lágrimas,
Lágrimas de papel.


Loretta di Fiori.

Sessenta Luas

Naquele dia, a lua resolveu se esconder.
Parecia o fim,
Parecia...

O primeiro triste e
Solitário aparecer da Lua
Só marcou que seria
Um longo tempo de lá para cá.

E vieram as outras Luas,
Os outros choros,
As mesmas saudades...
O mesmo motivo!

Parecia o fim,
Parecia...

A cada luar,
Uma espera de algo.
Na verdade,
Todos vivemos a esperar;
Cada um com seus motivos,
E a espera parece não ter fim.

Hoje o luar me trará
Teu sorriso,
Teu olhar.
Me trará à memória
Teus beijos,
Teus olhares.
Quem sabe, até
Uma surpresa...

Afinal, ainda espero há sessenta luas!

"Patience, patience".

Loretta di Fiori.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Inconstantes

Nuvens sem água,
Levadas por ventos...
Para onde irão?

Árvores secas,
Ninguém sabe quais frutos
Um dia, esta cedeu.

Taças vazias,
Manchadas pela bebida
Que um dia serviu.

Olhares distantes,
Ninguém perguntou
O porquê.

Trens sem rumo,
Vagões marcados pelo tempo.
Onde já estiveram?

Vidas solitárias,
Mãos desacompanhadas,
O que esperar?

Corações gelados,
Costurados pelas linhas da amargura.
O que aconteceu?

Pessoas distantes,
Muros construídos.
Cores cinzas.
Amores inconstantes,
Sentimentos perfeitos.
Memórias esquecidas,
Fotografias rasgadas e
Pinturas envelhecidas.

Palavras distraídas,
Atitudes incompreendidas.
Pensamentos sombrios,
Lágrimas caídas.

Passos largos,
Medo.
Rastros de paixão,
Desejo.
Desapego da emoção.

Risos amassados,
Olhares desperdiçados.
Gargalhadas falsificadas,
Lágrimas disfarçadas.

Fugas para o esquecimento.
Lutas para manter em segredo.
Discretos,
Sinceros.
Seus afetos.

Sóis azuis.
Céus larajandos.
Lua prateada,
Estrelas douradas.
Noite de lua cheia,
Solitário reflexo na sacada.
Janela entreaberta.
Cortina balançando.
Sirenes.
Gritos.
Gemidos.
Amores.
Faróis.
Luzes.
Fumaças.
Dores.
Noite, noite.

Alma pálida.
Corpo sem curvas.
Mãos manchadas.
Crime perfeito.
Um bom disfarce.
Ganhe essa carta.

Esqueça.
Não, vá...
Fique!
Siga os sons.
Não ouço.
Eu também não.

Efeitos inesperados.
Cartas marcadas.
Ruínas sinalizadas.
Cidade adormecida.

Príncipe Encantado.
Bela Adormecida.
Acorde!
Estão todos lá fora.
São dez para as seis.
Céu colorido.
Trilhas de arco-íris.
Onde estão todos?

Inconstantes.


Loretta di Fiori.