quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Um Lugar Chamado Lo-Debar

Lo-Debar fica perto de Lugar-Nenhum.
Em Lugar-Nenhum os moradores são conhecidos
Como Ninguém-se-Importa.
São pessoas que dia após dia,
Caminham sem direção
E se perdem em ilusão.
Lugar - Nenhum é famosa!
Lugar construído no pico
Da montanha mais alta,
Banhada pelo mais longo rio.

Todos Ninguém-se-Importa vivem bem,
Com fartura e fornicação ao bel prazer.
Casam-se e dão-se em casamento,
Bebem, riem e se perdem em juízo.
Afora, arranjam guerras e contendas
Com quem passar à frente.
São conhecidos como os gigantes da região.
Os habitantes de Lo-Debar os temem,
Por isso, sempre se mantêm distantes
Evitando confronto.

Lo-Debar é no vale,
Os Sem-Redenção que moram lá.
São a escória,
A vergonha da Terra.
Pobres, cegos e nus.
Povo esquisito, de aparência que não atrai.
Mas compartilham o pão e a água.
O solo é infértil,
Amaldiçoado para não produzir.

Mas um Sem-Redenção certa vez
Tentou carregar em um balde,
Um pouco da água do formoso rio de Lugar-Nenhum.
Queria construir um Novo-Mundo.
Mas, no caminho de volta, deixou cair parte dessa água.
A pobre alma, ao se deparar com o balde quase vazio,
Se ajoelha e em prantos, mostra seu coração
Às forças de cima.
Lamenta o fracasso,
Lamenta sua atitude.
Até que seu choro se rende ao sono profundo.

Só aquele Sem-Redenção sabia do que lhe afligia,
Pois em segredo, tudo mantinha.
Dessa dor não compartilhava,
Mas nela insistia.
Afinal, compunha a escória.
O que poderia ser diferente?

E dia após dia,
Lo-Debar e Lugar-Nenhum caminhavam em direções opostas.
Uns tendo nada e outros, sendo um nada.

Até que, com a próxima estação,
As nuvens estranhas foram trazidas por ventos de mudança.
Daquele solo brotara uma bela sinfonia de um flautim!
Aquele ramo verde, frágil e solitário
Era a resposta que veio de presente para Lo-Debar.
Seria possível, depois de anos nessa maldição
De terra infecunda,
Dela brotar nossa esperança?

Ao cheiro das águas...
Águas que caíram do balde de um cidadão qualquer,
De um Sem-Redenção comum.
O que lhe causou dor, lamento e muito choro,
Se converteu em festa e esperança
Não apenas para ele,
Mas para todo um povo.

Lo-Debar - Deserto das nossas Almas.
Vale dos nossos dias.
Maldição da nossa peregrinação por esta Terra.
Mas a esperança da Salvação.

Ventos de mudança...


Loretta di Fiori.

Um dó, um lá!

Cabe um dó lá?
Falta tanta sobra,
Sobra tanta falta.
Um dó do perdido,
Um dó que prenuncia o próximo.
Um dó que define o acorde,
Um dó de quem sofre.

Dó de um lá para cá,
Formando um fá.
Um instante, essa nota fermata!
Volte ao dó.

Dó.
Pode dizer tanta coisa,
Pode não dizer nada.
É o começo, meio e fim.
Se não for o tudo, é o nada!

Caminhando...veja lá!
Outrora, lá fazíamos versos,
Jubilávamos.
Perdíamos tempo.
Quem o trouxe embalado para presente?
Alguém desarma antes de saiamos de cá para lá?

E nessa hora,
Cabe um dó aqui?
Para que dó,
Escreve outro acorde.
Toque em outro tom...
Corra, vá para lá.

Que audácia!
Um salto nos tons...
Alguém não quis tentar.
Arriscar?
Passar pelo Ré, Mi, Fá e logo atrás,
Veja o pôr do Sol.
Seguindo as placas,
Chega logo Lá.

1,2,3 e 4.
Compasso quatro por quatro.
Que dó!
Não, se afaste daqui
Voe para lá.


Loretta di Fiori.

Primavera - Verão, Outono-Inverno

Primavera-Verão!
As flores acordam de seu sono,
Colorindo o dia daquela moça que as recebeu
No café da manhã.
A campina renova os tons de verde,
Inspirando o artista a compor sua paisagem.
As montanhas se exibem junto aos rios,
Encantando os olhos de quem passa e os vê.
Os pássaros entoam bela melodia,
E, na janela de quem está se levantando,
Repousam, desejando-lhe boa sorte.

Os mares dançam e beijam as areias da praia,
Sem se importarem com quem os vê.
Embalando a visão daquelas almas apaixonadas.
As nuvens caminham de um lado a outro,
Pintando o céu e enchendo os olhos
De quem as vê, de imaginação!

As borboletas resolvem seguir o compasso
E, junto ao vento, se lançam sem receio.
Como aquele que lança sua sorte no regaço,
Temendo um fracasso.

As árvores esbanjam seus frutos!
E sustentam o ser daqueles que deles desfrutam.

Até que o colorido sede ao monocromático.
Outono-Inverno!
Como acordar em um dia,
Ao som daquela melodia
E aguardar apenas coisas boas.
E, subitamente,
Surpreender com os ventos da mudança.

O céu rapidamente se enegrece,
Esconde a luz daquela Lua
Que fizera um espetáculo junto ao Mar.
As nuvens passam a enjaular cada imaginação,
Deixando apenas a frustração.

O Mar se converte à frieza em imensidão!
As suas ondas se agitam
E derrubam o que carregavam com ternura.

Tempestade!
Ventos fortes a cortar, a congelar.
Lágrimas daquela nuvem que não
Suportou o peso sozinha
E despencou do seu céu
Fazendo conhecida ao mundo, sua dor.

"Por que essa diferença?"
Se pergunta o poeta.
"Vamos compor", impera como eco
A voz do compositor.
"Vamos escrever",
Pensa o escritor.
Que tal desenhar, escrever, compor...
E lançar ao mar,
Em uma pequena garrafa velha,
Com a qual ninguém se importe.
Isso pode cessar a fúria do Mar.

Entristecida,
A Lua se despede do dia
Que no fundo, sabe que construiu cada estação nele.
Sutilmente se esconde
Perdendo seu brilho atrás daquelas nuvens.
A paisagem mudou.

As entidades retornam para seus lares,
Repletas de melancólicas rimas,
De bemóis e notas ínfimas.

Fim da composição,
Fim do retrato
E fim da história.

Espere, falta o ponto final.


Loretta di Fiori.

Sem cobrar nada

Palavras soltas, pensamentos vazios
Caem do meu coração.
Aqueles momentos que passaram
Por um instante,
Mas que formaram memórias
Que ficarão para a eternidade.

Quanto valeu tudo isso?

Aquela pobre alma, perdida na rua
Carente de um olhar,
Suplicando redenção.
De repente, alguém passa.
"Seria esta minha salvação?", 
Pensa ali, emudecido pelo tempo.
E outros, e outros, e outros alguéns.
Até um aparecer, 
Se compadecer e dar-lhe o que queria.
Aquele abraço,
Aquele olhar e um sorriso.
Simples assim, 
Sem cobrar nada!

Aquele deserto,
Com o seu chão, desnudo,
Sujo e rochoso.
Os pés que por ele passam,
Bem o sabem que dali não brota flor alguma.
Até, que com o cheiro das águas,
Produz aquele ramo verde...
Sem cobrar nada!

Aquele órfão, 
Que teria todas as razões do mundo 
Para odiar a todos,
E querer se esconder.
Seus olhos suplicam amor.
Suplicam compaixão.
Alguém, de distante se fez próximo,
E com ternura o envolve
Dando-lhe o amor que precisa,
Sem cobrar nada!

Sorrisos,
Olhares,
Carinho,
Preocupação!
Abraços de graça!
Sem cobrar nada.

Para que?
A vida não passa de uma neblina.
Todos, em operação comboio caminham
Para o mesmo fim.
Mas esse caminho para o matadouro
Traz tortura,
Angústia...
Solidão, 
Derrota!
Desprezo,
Abandono.
Mas o caminho permace ali.
Imutável! Inabalável!
E ele não cobra a passagem!



Loretta di Fiori.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Poemas a olhos nus

Olhar para os verdes campos,
As matizes neste vasto Universo.
Contemplar as nuvens carregadas do que conhecemos por água,
Estacionadas no firmamento.

Ser anestesiado pela magia das flores se abrindo ao fim da tarde
E exalando o mais doce perfume em uma noite de verão.
Aproximar-me de uma pequena criatura
Recém trazida ao mundo,
De olhos fechados
Sem saber do futuro
Que já compôs suas notas.

Sentir o brilho da Lua lá de cima,
Tão silenciosa...
Tão misteriosa!
Contemplar a paisagem que forma
Junto ao Mar.
E recordar das Cartas lançadas
Sob o cuidado de suas ondas.

Ser aquecido pelo Sol,
Aquela estrela que parece ser a mais gigante
De toda a Galáxia.

Silenciosamente perceber os cantares daqueles
Que nos causam inveja por tocarem o céu.
Eles riem, cantam e interpretam cada Soneto...

Ouvir cada oitava das águas tocando os rochedos.
O ralentando do espumar dessa força
Após tocar a rapsódia!

Fechar os olhos então,
E suavemente perceber algo
A tocar a pele,
Tão gentil e delicadamente,
Espalhando os cabelos...
Abrir os olhos e não poder vê-lo.
Sentir sua presença,
Ter a certeza de sua companhia
Mas consolar-me com a sutil ausência.

Ao cruzar aqueles campos lá debaixo,
Ele grita!
Emite o som da liberdade
E carrega as pequenas flores junto dele,
Que, sem se oporem,
Dançam valsa com ele.

São vales e montanhas!
O Sol apareceu para aquecer
E a Lua continua para brilhar!
A chuva se foi...
Troque a estação,
Esta música já cantei outrora.
Esta cor já pintei...

Mas,

Espere!
A vitrola a tocar
Esta composição?

Algo novo.

Vento!
Tempo - Repete o Eco.


Loretta di Fiori.




sábado, 11 de outubro de 2014

Prelúdio da Saudade

Dois mundos,
Duas vidas.
Dois corações,
Ansiando viver como um só.

Duas partes de um todo,
Separadas.
Distantes.
Embarcando em diferentes estações.

Hoje partirei para longe.
Longe dos teus olhos,
Do teu calor.
Estarei no "Hotel Califórnia, um lugar tão encantador..."
Mas sem o encanto do teu perfume misturado ao teu sorriso.

Olharei todas as noites, da sacada desse Hotel,
Para a radiante Lua.
Sei que ela estará ali para mim
E aqui para você.
Pois já sabemos:
Ela brilha para mim e para você,
Não importa em qual lugar do mundo estejamos!

Hoje,partirei com meu coração mais pesado,
Faltando um pedaço.
O que dei de presente
Para a outra metade, que estará ausente.

Fica meu adeus.
O prelúdio dessa saudade
Que parte,
Que reparte...
Junto dele, meu beijo, meu até breve,
Dito na valsa da despedida.

Enquanto dançamos,
Repouso-me em teus ombros,
Sentindo tuas mãos a me tocar
E teu coração a palpitar.

Já tocou meia-noite!
Hora de embarcar nessa estação,
Antes que a magia se perca.
Fique com essa metade do meu coração:
Dar-te-ei de presente
Para não se esquecer da gente!


Loretta di Fiori.


Só uma frase

Para chegar ao final,
Completa-se a metade.
Dentro da metade,
Existem várias metades.

Para se completar uma frase,
Escrevem-se várias palavras.
Mas, no final, 
Acaba sendo só uma frase.

Só é metade da história 
Que essa pequena frase está
Desenhando ao escrever cada verso.

Para virar passado,
Cada momento deve ser presente.
E como se fosse de presente,
Pintar o mundo dentro da gente.

É só um momento,
Diga para a eternidade!
É só uma frase,
Diga para a história!

Se para chegar ao final,
Só existissem metades,
Nunca o alcançaríamos!
Andaríamos, escreveríamos...

Talvez isso realmente aconteça.

Fins nunca se findam,
Se não temos a certeza 
De onde queremos chegar.
Afinal, não sei o fim dessa história,
Mas tenho certeza do que eu busco nela.
Por isso, vou escrever os versos mais belos,
Desenhar as mais encantadoras melodias,
E dançar.
Fechar os olhos até a noite acabar.
Pois meu dia em breve chegará.

Vou seguir.
É só um momento,
Diga para a eternidade!
É só uma frase.
Você a completa?

Loretta di Fiori.

Sonho de uma Flauta

Silenciosamente permaneceu há anos.
Envolvida em lençóis para não riscar,
Trancada para as notas não fermatarem.

Cantar um solo!
Contar histórias.
Esse era o sonho daquela flauta.

Ouvia o piano com seus dós, rés e mis.
Lia as partituras daquela orquestra.
E em silêncio
Dançava para si mesma.
Ah, glorioso dia!

Como sonha essa flauta!
E o faz todos os dias.
Dormindo e acordando,
Sorrindo e chorando!

Cada epífaro,
Parecia, por equívoco,
Convidar-lhe para uma valsa.
Notas epífaras,
Eternas.

Dias, meses:
Prosseguiam-se os dós, rés e mis.
Lembranças de um tempo que virá.

Assim, seguia o ritmo.
Imaginava seu solo,
Dançava sua valsa.
Chorava em seu íntimo.

Sonho de uma flauta.


Loretta di Fiori.