domingo, 2 de novembro de 2014

Um Momento da Eternidade

A maldição da rosa foi lançada.
Por anos, viraria a vergonha,
Escondendo-se de si e de todos.
A menos que alguém a aceitasse,
A amasse.
Isso mudaria o conto final.

Sob a maldição,
Ela seguiu.
Já se acostumara ao seu passado,
Fazendo do seu presente
Um contar de dias para a eternidade
Não demorar.

Até que chega o convite para o Baile.
Todas as moças do reino irão.
O papel dourado, letras bonitas e o selo real...
Tudo compunha algo sobremodo elevado
À desfalecida moça.
Pois seu coração escondera,
Trancara e a rosa era a única esperança
Para a ele abrir.

Os preparativos começam,
Flores e perfumes por todos os lados.
Por que não ir?
Mas a voz daquela força
Que a amaldiçoara,
Soava dia após dia
Como o soar de um metal
Em seus ouvidos.

Foge para um lugar tão-tão distante.
Corre sem direção,
Seus cabelos se perdem ao vento,
Até que seus joelhos se rendem ao chão.
Sem perceber,
Dos seus olhos brotavam lágrimas,
De dor, de esperança.
Tantos anos sob a maldição da rosa!

Alguém de longe a vê
E a toca por trás.
"Quem é você?" - ela pergunta.
"Sou seu desejo realizado". - ele responde.
E a chama para dançar.
Ali, distante de todos no Baile.
Afinal, para que estar rodeado de muitos olhares,
Sentindo-se só?
E para que tantos sorrisos,
Sentindo-se em perpétua tristeza?

A música tocava para os dois.
Ela nem se importara com o vestido que usava,
Mas sabia que o perfume das rosas em si,
Era do que ele gostava.
E para aquela moça,
Outrora desamparada,
Sofrendo as dores de sua maldição,
Aquele momento a fez tirar os pés do chão.
Ele sussurrava em seus ouvidos,
Levava seu corpo no compasso.

Até que tocou meia -noite
E, com o soar do sino,
A rosa caiu no chão,
E sem notar, quebrou a esperança de sua salvação.
Ele parte,
Seu olhar é sombrio,
Vazio,
Sem brilho.
Suas mãos tocam pela última vez
As mãos que tremiam.
A vitrola parece quebrar,
E junto, o compasso da música a tocar,
É interrompido por um ruído.

Ela tenta enxergar e não vê.
"Tenho tanta coisa a te falar..."- ela grita!
"Falar, cantar..." - repete o eco.
Seus olhos, perdidos no horizonte,
Seus joelhos, trôpegos no solo da campina que se convertera em deserto,
Seus olhos, jorrando lágrimas,
Seus lábios a entoar enfurecidamente
"Não vá..."
Até que suas forças se esgotam.
Não cessam as lágrimas.
Se curvam os altares.

De repente, ela abre os olhos,
Enxuga bruscamente seu rosto
E leva seu olhar ao seu lado.
Sua rosa se quebrara!
Estava ali, desnuda, desprotegida e espatifada ao chão!
No castelo, risos e emoção de todos os que ali festejavam.
Ela podia ouvir,
Mas estava ali, sozinha.
O relógio parou.
Parou à meia-noite.
Ela desesperadamente corre em sua direção
E tenta voltar as horas.
Não dá.
Ele quebrou.

Seu coração tenta aceitar,
Embora, sem nada a entender,
Queria ter tido a chance de voltar,
De esquecer.
De não nascer!

Mas é tarde.
Daquele sonho
Não ouviu um "adeus".
Mas, o momento que a ele esteve,
Foi um momento de sua Eternidade.

Agora, sem rosa e sem tempo a correr,
Ela parte,
De volta a seu mundo
À sua realidade.
A de que fora amaldiçoada
A não ser amada
Por tanto amar.

Afinal, foi só um sonho
Que viveu por um momento
Na eternidade!

Loretta di Fiori.

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